Perdido em Naufragados

Li sobre uma americana que saiu de uma trilha e ficou 26 dias perdida, até morrer.

Na matéria falam que ela deve ter ido atrás de um ponto que o celular desse sinal e acabou nessa situação (fora do lugar onde normalmente procuram pessoas perdidas). O que me remeteu a minha história particular. E é melhor escrever antes que eu esqueça totalmente dos detalhes.

Isso aconteceu antes do distante ano de 2009. Não sei precisar. Meu irmão morava em Florianópolis e eu estava num período pós divorcio querendo bater perna.

Como meu irmão estudava na UFSC eu tinha lugar para ficar na ilha, então quando dava eu ia pra lá. Pensando bem devo ter ido coisa de 4 vezes ou mais. Creio que era a segunda vez que ia pra ilha, meu irmão estava bem ocupado com a facul e eu estava bem animado pra ver praias. Na primeira vez meu irmão e eu íamos de ônibus pras praias, então na segunda vez eu já estava achando que sabia muito.

Meu plano, como sempre foi, é ir seguindo por um caminho até não conseguir mais. Dali pegar um ônibus de volta pra casa. Sempre detestei “ir e voltar” pelo mesmo caminho. Prefiro caminhos novos, novas paisagens (desde os 11 anos que já saia sozinho caminhando pelo mundo).

A dois dias atrás eu tinha pego ônibus até a praia de jurerê internacional, cruzei por trás da praia do forte andando pela praia até a ponta de Daniela, voltando até a outra ponta de Jurerê pela areia. Nessa caminhada fui pelas pedras, num sol de meio dia parando nas sombras, “invadindo” praias particulares (só por que as praias são cercadas de pedras, não as fazem particulares, só difíceis. Passei pela praia do forte, e caminhei por boa parte de Jurerê. Tirei ótimas fotos com minha máquina fotográfica japonesa.

Em Jurerê comi a única coisa do dia (Picolé de uva) e peguei o primeiro ônibus que passou pelo ponto: Parei em Ingleses, atravessando o deserto e indo parar na praia de Santinho, chegando na boca do resort terminei a aventura do dia, muito assado, bem bronzeado mas extremamente feliz.

Peguei um ônibus de volta pra casa e dormi quebrado.

Por que não um repeteco em novas paragens?

Descansei um dia e já me organizei pra aventura. Já tinha feito as praias do norte, hora de fazer as do sul né?

Minha bagagem era uma mochila com uma muda de roupa, toalha, uma garrafa de água pequena, uma garrafa de água grande (o truque é comprar agua grande nos supermercados longe da praia pra não pagar super caro na areia).

Também tinha um mp3 player,

Que tinha 256 megas, gigante pra época

Que tinha 256 megas, gigante pra época

 

um canivete suiço,

Que era brinde de uma empresa em que eu fiz um curso. Mas é original!

Que era brinde de uma empresa em que eu fiz um curso. Mas é original!

uma câmera coolpix 3200 muito foda, com acho que uns 16 megas de memória, mas era de 2.1 megapixels

Que devia ser uma das câmeras mais fodas que eu já tive.

Que devia ser uma das câmeras mais fodas que eu já tive.

meu celular siemens DE FÈ

Que passou por muitas e boas comigo

Que passou por muitas e boas comigo

e uma quantidade grande de moedas soltas pela mochila. Não lembro de muito mais, mas foi o que utilizei.

Como meu irmão não ia comigo, cai na estrada.

Da UFSC eu acabei em Campeche. Saí caminhando nesse mundo sem fronteiras até matadeiros, retornei a armação e peguei um ônibus em frente a igrejinha em pra descer em Pântano do Sul. Ah, nessas viagens eu tirei algumas das minhas melhores fotos. Um dia posto aqui. Ah e a praia de morro das pedras é tão massa, pena ser bem traiçoeira.

Continuando. Caí em Pântano do sul, com o tempo nublado, mas com sol intervalando. Bem bonito e não ia me fazer desistir.

Eu tinha lido pela internet que existia uma trilha média de 1 hora e pouco entre a praia da solidão a naufragados. Como ainda estava cedo (coisa de 16hs) e o sol iria se pôr pelas 19 eu estava tranquilo.

Fui de Pântano do sul a Solidão numa caminhada sussegada.

Não consegui achar o inicio da trilha pra naufragados e perguntei aos locais. Das duas vezes que perguntei, a resposta era sempre com espanto: “Você vai assim?” (Eu estava de bermuda e chinelo). “Você têm lanterna?” e eu respondia que estava claro e dava tempo. Pessoas balançavam a cabeça em desaprovação.

Alguns falavam que a trilha estava fechada, que tinha chovido muito nos últimos dias e não dava pra passar. Eu dispensei a informação por que ouvi falar de que um cara tinha atravessado de naufragados pra solidão mais cedo (info que outro local me deu).

No fim, com a cara e a coragem (e ignorância, pois vários tentaram me dissuadir mas eu ignorei) cai na trilha.

A primeira parte após um matinho razoável foi um morro com trilha. Lá encontrei o que seria a última pessoa a conversar comigo e penúltima pessoa que eu vi até achar a saída do lugar.

A conversa com o local foi bem legal, ele disse que choveu e que a trilha estava ruim de passar, mas ele vinha da praia do saquinho. Também que tinha muita cobra, uma vez que a chuva varria as cobras pra trilha.

Machão eu respondi que vinha “da terra das cobras” e que não tinha medo. Ele me perguntou de onde eu era e respondi “MS” no que ele respondeu que era de Bela Vista (interior do MS) e que ainda assim tinha medo das cobras dali. E que tinha bastante. Mais uma vez, ignorei e continuei a marcha.

Passei pela praia do saquinho sem ver praia. Na verdade estava meio escuro e bem molhado. Ao passar pela vila vi vultos de pessoas mas continuei em direção ao que parecia ser a trilha. Mal eu sabia que dali seria uma longa jornada.

A partir daqui, não tenho googlemaps pra ajudar, não tem como mostrar muito da trilha. Só minha memória.

Eu estava bem confiante, tinha um pouco de sol e disposição. Também estava com o celular com metade da bateria e na trilha eu tinha conferido se tinha sinal. Na pior das hipóteses, eu ligaria pro resgate. Mas é claro que eu não iria precisar de resgate, não?

Estava sem camisa e de chinelo. Logo no começo da trilha após a praia do saquinho comecei a escorregar muito com o chinelo, então coloquei o chinelo nos antebraços e continuei a caminhar, agora descalço.

Caminhava enquanto teias de aranhas batiam contra meu peito, denunciando que pelo caminho não havia passado ninguém. Mas podia ser que as aranhas fizeram durante a tarde, não?

E a trilha escurecia aos poucos. Comecei a ficar com sede e não sabia mais se minha meia garrafa pequena aguentaria.

E a luz se esvaia. Passei por riachos, não sei se de chuva ou de nascentes mas em determinado momento resolvi arriscar. Bebi toda a pouca água que tinha e enchi a garrafinha em um dos riachos, tentando filtrar a sujeira o máximo que consegui. Por um lado a luz me ajudou: quase não via sujeira na garrafa. Por outro lado, quase não enxergava direito.

Por vezes encontrei árvores caídas pela trilha, tendo que passar por baixo ou por cima em lugares que pareciam bem difíceis ser realmente o caminho. Lembro de ter encontrado bifurcações e ficar na dúvida. Minha resolução foi simplista mas lógica: Eu iria em direção ACIMA,  distante do mar. Por que se fosse apenas um lugar onde a água corria e não uma trilha, eu acabaria em um penhasco e teria que retornar na melhor das hipóteses. Na pior eu cairia de um paredão.

Essa mesma decisão simplista depois me causou dúvidas. A água corre em direção ao mar sim. Mas se eu só escolhesse direção acima, o que me impedia de pegar a direção de que a água vem e me afastar da trilha? Eu estava mesmo na trilha ou apenas seguindo o caminho da água, inverso ao mar? Estava correto? Perdido? Não. Não acho.

O tempo escurecia. Por que escurecia tão cedo? Ainda não eram 17horas? Sim, na minha cidade natal. Em Florianópolis estava mais pra quase 19hs. Mas não descobri naquela hora, estou me adiantando.

Passei por todas as personalidades de pessoas de filme de terror: Por momentos fiquei religioso, implorando pra Deus por ajuda. Fiquei desesperado, sem esperanças de sair vivo. Fiquei paranóico, estava sendo seguido? Fiquei heróico, eu iria escapar por mim mesmo. Fiquei confiante, era apenas uma aventura pra contar. Fiquei com medo, quem sabia onde eu estava? Ninguém. Fiquei louco: iria virar um homem selvagem e morar por ali.

Percebi que o silêncio barulhento da mata estava me afetando. Liguei meu mp3player, coloquei os fones de ouvido e iniciei uma música. Em instantes, tirei os fones: Havia algo atrás de mim? Eu conseguiria perceber de ouvidos tampados por som?

Amarrei os fones na parte de trás do boné. Os fones ficaram dependurados atrás da minha cabeça. Eu conseguia ouvir os sons ao meu redor, mas ouvia a música.

Saí dançando pela mata, como um doido. Tocava discoteca, eu dançava.

Após uma relativa clareira, quando ia voltar à mata veio a iluminação. Estava perdido. Se não estava perdido estava na mata a noite, sem lanterna. Sem mapa. Sozinho.

Olhei meu caminho ele se transformava no que parecia ser uma caverna: um tronco enorme cruzava alto. Abaixo dele, apenas escuridão. em direção a clareira algumas estrelas no céu, mas principalmente o azul escuro de um céu nublado. Naquele momento o falsa caverna parecia a boca do inferno. Desisti.

Na clareira eu estendi minha toalha na grama e deitei nela. Fui organizar meus pensamentos.

Era hora de engolir meu orgulho e ligar para a emergência. Já imaginava a manchete dos jornais “turista idiota mobiliza bombeiros por que achava que era fodão”. Já treinava minhas desculpas aos bombeiros, por que com toda certeza e toda razão iriam acabar comigo. Lição aprendida. Mas é melhor que “Encontrada ossada de turista perdido a 5  anos atrás”. A clareira era um lugar estratégico. Caso viesse um helicóptero, minha câmera fotográfica tinha energia o bastante pra vários flashes, o que obviamente facilitaria o resgate. Também observei que parecia que viria uma chuva, e não seria nada confortável tentar passar a noite ali na clareira, como seria meu plano B.

Abri minha mochila.

Retirei meu telefone.

2 barrinhas de energia, de 3. Ótimo.

“Sem sinal” avisava o aparelho. Eu estava fora da cobertura da área.

10 minutos de descanso e a resposta era a mesma: Eu poderia ficar na clareira e implorar a gaia para que não chovesse. Ou usaria a luz da tela do celular como lanterna e continuaria a trilha.

Sem resgate. Raios cortavam o céu. Não queria passar a noite ali, resolvi continuar o que parecia a trilha, usando com parcimônia a luz do celular, depois se necessário o flash.

Minha mente voava, imaginava que milhares de cobras passavam ao meu lado, atrás de mim barulhos como monstros que me seguiam.  Por vezes algo caía na mata a frente. Ou ao lado? Estrondos, era coisa da minha cabeça? Era algo? Não era nada? Ouça a música, não é nada. Continue o caminho.

Minha energia se esvaia. A escuridão já estava insustentável. Contava os segundos em que o celular desligava a tela de espera, e apertava os botões.

Por vezes usava a luz pra ver onde era o caminho. Aos meus pés, mato alto, mato alto, mato baixo, mato alto, mato alto. A trilha era o mato baixo. E fui andando.

Quando eu estava nesse túnel de escuridão, meu celular começou a piscar. Olhei com curiosidade e tristeza, achei que era o fim da bateria. Mas era uma ligação.

Meu irmão, preocupado comigo por que eu não voltava pra casa me ligava. ele imaginava que eu estava em um motel sem um rim, seduzido por uma loira.

Em um momento de confusão, atendi o telefone e respondi cripticamente: “-Estou perdido na mata, usando o celular como lanterna. Se algo acontecer, te ligo, mas quero economizar a bateria. “, meu irmão respondeu “Ok” desligou.

Por um lado, meu celular tinha sinal. O que é bom.

Por outro lado, estava no meio do mato, agora pra ser localizado só se aparecesse outra clareira.

Da minha garrafa dágua, só restava o fundo. Bebia a água e mastigava areia. Alguns vagalumes resolveram ir em direção ao meu celular e eu comecei a espantá-los, e parei na minha loucura. Caso acabe a luz do celular, eu prenderia alguns vagalumes na minha garrafa e usaria de lanterna.

De repente uma planície abriu-se a esquerda. Grama. Parecia algo feito, não nascido. Eu ouvia o barulho do mar. Caso não houvesse nada, iria voltar e dormir ali naquela grama. Fui descendo, tentando manter os vagalumes próximo. Vejo um vagalume enorme, amarelo. Parado.

Depois de instantes percebo: era uma casa, com luz! Uma lâmpada que eu confundi com um vagalume. Uma casa era uma pessoa, e uma pessoa é um lugar onde tem pessoa. Bati palma e alguém com uma lanterna apareceu, pedi por água e ela me trouxe. Falei que estava vindo da trilha do saquinho, no que as palavras do começo da trilha ecoaram na resposta “-Desse jeito? Descalço, sem lanterna?” e eu realmente entendi o que tinham me dito. Lição de humildade aprendida.

Eu perguntei se a praia estava perto, no que veio a resposta: é só descer, é aí pertinho. Como estava tarde perguntei onde poderia pegar um ônibus de volta pro centro, no que ela respondeu “você tem que pegar uma trilha de uns 20 minutos naquela direção”. Questionei se havia um lugar pra comer e ela me indicou a “Pousada do Golfinho Azul”.

Atravessando a praia, quase entro numa casa e apanho de um segurança, ainda desnorteado com luzes ou falta delas. Cheguei a pousada. Perguntei sobre a trilha e sobre comida.

Me falaram que algumas pessoas iram pegar a trilha mais tarde, que a comida custava 5 reais e um quarto 20.

Pedi a comida, meus pés cansados e eu com aparência de maluco.

É quando começa uma chuva descomunal. Cavuquei minha mochila pelas moedas soltas. Consegui coisa de 25 reais, mas o ônibus custaria 20% do que eu tinha. Segundo o dono do hotel, ele faria o quarto e comida por R$20, até por que eu não conseguiria voltar pra cidade hoje. E meu visu de abandonado acho que ajudou.

Tinha um lugar coberto pra dormir, tinha cama então tava tudo certo, não?

Pois um outro hóspede passou a noite tentando entrar no meu quarto e me molestar. Mas essa história fica pra outro post.

Nessa foto onde dormi, no segundo andar. As duas janelas do fundo é por onde eu ia tentar escapar se o cara invadisse.

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