O último.

Quase hora de ir pra casa, mas eu precisava ficar mais um pouco. Não é sempre que a palestra é tão boa, principalmente por que eu não prestava atenção e ela me dava bola. Ela sempre foi assim, e eu também. Não tem muito futuro mas a palestra também não. Garotas contra palestras, a segunda perde feio.

Essa garota era um dos motivos pelo qual eu ia na aula. E foi o motivo pelo qual eu fui na palestra. Muita gente mas eu só queria ficar sozinho com ela. Engraçado lembrar disso agora, quando estou sozinho a caminho de casa. Lembro como eu nunca realmente gostei de ficar sozinho. Desde pequeno. Caminhando pelo caminho de casa eu me lembro por que. O fato de estar só, não me assusta por si. O que mais me assusta é a chance de ser o último. Tá bom, entenda-se não o último da ordem, mas a chance de daqui pra frente não existir mais nada. Como se tudo tivesse morrido e só eu não soubesse. O que mais me assusta é a chance de que eu seja o último e bem, quem ou o que acabou com todo o resto não teria dificuldade de acabar comigo. A dúvida é resistir inutilmente ou ir de bom grado. O que me assusta mais?

Mas pára de pensar besteiras, você não está sozinho. Olha lá aquele cara que parece um mendigo andando do outro lado da rua. Com a sua sorte ele vai atravessar e querer conversar. Poderia eu ser o último? Dessa maneira não precisaria ter que lidar com esse típo de situação. Bem, tiro e queda, lá vem ele. Pelo jeito que anda está bêbado. Apalpo minhas coisas pra lembrar se realmente estou com elas e mentalizo a quantidade de moedas que tenho. Mas sei que nesse mundo é uma luta entre meu miojo e o dele, e ele fica perdendo essa.

Fedendo ele pede por um cigarro. E tão perto de chegar em casa, podia passar sem essa. – Não tenho cigarro moço, não tenho sequer uma moedinha… pra te dar (um pouco de culpa cristã pra não mentir afinal). Não é incomum, então nem muito me importo pela enchurrada de palavrões que me caem nos ouvidos. Sei bem que uma pessoa nessa hora da noite, nessa parte da cidade não tem muitas opções ou bons modos, mas poderia ser pior.

Xingando ele atravessa a rua, olhando na minha direção. Um carro passa e o atropela. Pedaços de uma pessoa voam para cima, mancha se forma no chão e eu ali, vendo a cena em câmera lenta. O carro não teve muito estrago. Quando o condutor sai, parece mais apressado do que apreensivo. Imagino que era o motivo de correr tanto.

Olhou pros, e me viu. Olha pra dentro do carro e fala baixo, mas eu escutei: Serjo, aquele carinha ali viu tudo. Bem, realmente vi tudo, o carro correndo o mendigo morrendo, mas só eu tinha visto. Não sei por que eu saí correndo, mas saí. O fato de eu ser o único não me caiu bem. E a procura de testemunhas me caiu mal mesmo. Das pernas moles depois de ver alguém se transformar de gente em saco de ossos e sangue, consegui juntar forças e correr. Não sei bem se ouvi direito, mas correndo pelas ruas ouvi tiros. Coisa da minha cabeça. Mas fui evitando as ruas principais.

Meu perto de casa parecia mais longe do que nunca. Melhor em casa com medo do que na rua, imaginei eu. Isso nem é hora de gente tar na rua. Pelo menos o carro vermelho sangue, Serjo e o amigo estavam longe e minha casa, mais perto. Até eu ver aquele carro passar novamente. A frente um pouco amassada, o capo afundado. Sempre achei gol um carro bonito, mas aquele me assustava. Pensei ser o do vizinho de casa, mas ninguém lá parecia quem eu tinha visto ou se chamava Sérgio. Boa gente, com uma filha bonita. Lentamente passava aquele carro que eu não queria ver e juro, acho que viram.

Pela rua de trás eu fui, com medo da minha própria sombra. “-Quem sabe se eu der um tempo e ligar tudo fica sossegado”. Tentei ligar pro meu primo Carlos que estava em casa mas o idiota não respondia. Possivelmente falando na internet com a namorada. O tempo parecia que esfriava com o tempo e quando eu tomei coragem pra tentar novamente ir pra casa, surge da escuridão a aquela baleia branca (vermelha) que eu não desejava ver. Não sei como eu consegui me esconder, mas consegui. Passou sem os faróis ligados mas vi o bastante pra me assustar ainda mais. Algúem no volante uma pistola reluzente lá dentro, em punho. Passando olhando como se me procurando e senti cada pêlo do meu corpo ficar imóvel quando eles passaram. Seria eu o último acordado e quase tendo um enfarte nesse mundo? As ruas pareciam mais vazias do que eu me lembro, e eu já vi elas durante jogos da seleção. Cada passo que eu dava exprimia uma miríade de sons e meu coração batia forte na garganta, querendo pular fora. Eles viraram em direção á rua principal movamente. Agora nem lembro se eram os mesmos caras. Eu só queria chegar logo na proteção de casa pra poder me esconder ou chamar a polícia. Mas não tinha nem pego o número da placa.

Não era a hora pra ficar na rua. A qualquer hora eles poderiam voltar, seja lá quem fossem e eu não queria fica na rua. Plano B foi a velha malandragem: existe uma maneira de se entrar em casa sem ser pela frente. Envolve andar em alguns telhados  e pular alguns muros mas eu prefiria arriscar isso a ficar mais tempo na sarjeta. Meu mais medo seria o cachorro do vizinho latir e finalmente me matar do coração, que não seria um feito difícil, mas tudo ocorreu bem. Ninguém estava acordado a noite aparentemente, eu era o último.

Você sabe quanto pode ficar feliz quando a chave da porta do fundo está no mesmo lugar secreto que você sempre deixa? Eu sei. A sensação de segurança é impressionante. Jogando meus troços pro lado fui pro quarto do idiota do meu primo contar minha história, tropelçando em besteiras no caminho por que esqueci de ligar a luz.  Entrei no quarto do meu primo e ao ligar a luz senti as pernas amolecerem como se o chão cedesse. Meu primo ensanguentado e amarrado. Foi impossível segurar meu grito quando ouço um barulho vindo da porta da frente. Viro e vejo a luz da sala se ligar e um cara alto com uma pistola entrar e me mandar calar a boca.

A casa está toda revirada, fotos no chão, sem tv e computador. O cara, creio que o tal serjão, me avisa que me reconheceu durante a fuga e sabia que eu podia dar problema. Já tinha dado cabo nos vizinhos e pego o carro pra fugir.

Quando perguntei de meu primo ele disse “Seu primo já era. Sò faltava você, mas agora é o último”.

Eu te pergunto: O que te assusta mais?

Anúncios